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Doenças dos Nossos Olhos: A Retinopatia Diabética

Por Dr. Adriano Aguilar e Dra. Ana Fonseca
Médicos Oftalmologistas

De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), existem actualmente cerca de 171 milhões de pessoas com diabetes, estimando-se que em 2030 esse número duplique. A diabetes tipo 2, a mais frequente, tem maior prevalência nos países mais desenvolvidos, devido ao estilo de vida e aos maus hábitos alimentares adoptados por grande parte da população. O aumento de incidência da diabetes tipo 2 nos países em desenvolvimento segue precisamente a tendência de mudança de estilos de vida. Neste contexto, a retinopatia diabética é uma das principais causas de cegueira no mundo e atinge cerca de 75% dos diabéticos com mais de 20 anos de doença.

A diabetes mellitus é uma doença caracterizada por hiperglicemia (aumento dos níveis de açúcar no sangue) devido a defeitos na produção de insulina no organismo, na acção da insulina no organismo ou em ambos. Os altos níveis de açúcar no sangue lesam os vasos de todo o organismo, muitas vezes de forma silenciosa. Com a evolução da doença, pode surgir uma série de complicações em diferentes órgãos, como o cérebro, o coração, os rins e os olhos, entre outros.

Há vários tipos de diabetes mellitus: a diabetes tipo 1, antigamente conhecida como diabetes insulino-dependente, corresponde a cerca de 10 % dos diabéticos, sendo mais frequente iniciar-se nas idades da infância e juventude. Deve-se à destruição auto-imune das células beta do pâncreas, onde se produz a insulina. O organismo produz, por isso, pouca ou nenhuma insulina e o doente necessita de injecções de insulina para sobreviver.

Outro tipo de diabetes, a diabetes tipo 2, antigamente designada por diabetes não
insulino-dependente, é a mais frequente (cerca de 90% dos casos) e inicia-se em pessoas com mais de 40 anos, estando muito relacionada com a obesidade. O processo fisiopatológico não está ainda totalmente esclarecido. O organismo produz insulina em quantidade suficiente mas parece haver uma “resistência” das células à acção da insulina. Este tipo de diabetes pode por vezes ser controlado apenas com perda de peso e exercício físico, embora na maioria dos casos seja necessária medicação.

A diabetes gestacional é a diabetes que ocorre durante a gravidez em cerca de 2% a 5% dos casos e é semelhante à diabetes tipo 2, uma vez que também parece haver uma resistência das células à acção da insulina. Cerca de 40% das mulheres que durante a gravidez têm diabetes, vêm a desenvolver diabetes mellitus tipo 2 nos primeiros 10 anos após a gravidez.

A retinopatia diabética é uma complicação ocular da diabetes que ocorre devido à lesão dos pequenos vasos sanguíneos da retina, no interior do olho, podendo levar à cegueira.

Inicialmente não dá quaisquer sintomas, podendo inclusive evoluir para um estádio muito avançado sem que o doente se aperceba de qualquer alteração da visão. É por isso imperioso a vigilância regular pelo médico oftalmologista. 

O diagnóstico precoce da retinopatia diabética, efectuado através do exame do fundo do olho com dilatação da pupila pelo médico oftalmologista, é muito importante para evitar a perda de visão. O exame oftalmológico deverá ser feito nos primeiros cinco anos após o diagnóstico de diabetes tipo 1 e nos primeiros meses após o diagnóstico de diabetes tipo 2, devendo depois ser repetido pelo menos anualmente. O médico oftalmologista pode complementar a sua observação clínica com um exame chamado angiografia fluoresceínica, em que se injecta um corante numa veia e em seguida se fotografa o fundo do olho durante alguns minutos, avaliando o comportamento do corante nos vasos da retina.

A retinopatia diabética é uma complicação possível da diabetes mellitus, pelo que só pode surgir nos doentes diabéticos. Contudo, nem todos os diabéticos têm retinopatia diabética. Há factores de risco que a tornam mais provável, tais como o número de anos de diabetes, o mau controlo dos níveis de açúcar no sangue, a hipertensão arterial e valores elevados de colesterol no sangue.

Há dois tipos de retinopatia diabética: a retinopatia diabética não proliferativa (RDNP) e a retinopatia diabética proliferativa (RDP).

A primeira delas, retinopatia diabética não proliferativa (RDNP), corresponde a um estádio inicial da doença em que poucos ou nenhuns sintomas estão presentes. Neste tipo de retinopatia, a parede dos pequenos vasos sanguíneos da retina enfraquece, formando pequenas saliências (microaneurismas) que constituem o primeiro sinal da doença. Estes vasos sanguíneos lesados deixam extravasar líquido (resultando em edema), sangue (resultando em hemorragias), gordura e proteínas (que se podem depositar na retina formando exsudados). Alguns destes pequenos vasos sanguíneos lesados ocluem, deixando zonas da retina sem irrigação sanguínea (zonas de isquémia). Se o extravasamento de líquido ou a isquémia atingem a mácula (região da retina responsável pela visão central), o doente sentirá uma deterioração na sua visão.
A retinopatia diabética proliferativa (RDP) corresponde a um estádio mais avançado e grave da doença em que há crescimento de novos vasos sanguíneos anormais e tecido fibroso na retina, disco óptico e em direcção ao humor vítreo (gel transparente que se encontra dentro do olho), causando perturbações acentuadas na visão. A existência de extensas zonas de isquémia na retina, onde o sangue e nutrientes não chegam em quantidade suficiente, torna-se o principal estímulo para o aparecimento destes neovasos que tentam colmatar o deficiente fluxo de sangue às áreas onde os vasos sanguíneos ocluíram. Os neovasos são muito frágeis e sangram com facilidade.
Os tratamentos mais utilizados para a retinopatia diabética são a fotocoagulação laser e a vitrectomia. A fotocoagulação por raios laser tem como objectivos diminuir a perda de líquido dos vasos sanguíneos para a retina (no caso do edema macular) e impedir o aparecimento de neovasos ou provocar a sua regressão (no caso de retinopatia diabética mais avançada). A vitrectomia é um procedimento cirúrgico mais complexo, indicado nos casos de RDP avançada em que o humor vítreo esteja repleto de sangue (hemovítreo) ou em que o tecido fibroso formado com os neovasos esteja a repuxar a retina da parede do olho, podendo levar a descolamento de retina.
O controlo cuidadoso do nível de açúcar no sangue e a vigilância periódica pelo médico oftalmologista são extremamente importantes para prevenir ou atrasar a evolução da retinopatia diabética. Esteja atento.